Antiga narrativa de Kaldren, recitada durante cerimônias de juramento. Algumas versões afirmam que o protagonista foi uma figura histórica; outras o tratam apenas como advertência.

Antes de as fortalezas de pedra dominarem os vales do norte, existia uma aldeia chamada Harnvik, cercada por pinheiros negros e montanhas que jamais perdiam a neve.

Durante uma noite de inverno, um guerreiro chegou aos seus portões.

Chamava-se Arvold, filho de Skennar, e carregava no escudo o símbolo de um clã distante.

A aldeia havia sido atacada três vezes naquele ano. Seus celeiros estavam quase vazios, seus guardas eram poucos e suas crianças dormiam vestidas, prontas para fugir.

Diante do braseiro de Sývara, Arvold colocou a mão sobre o ferro aquecido e declarou:

— Enquanto meu nome for lembrado, nenhum inimigo atravessará estes portões sem passar primeiro por mim.

Os anciãos aceitaram o juramento.

Arvold permaneceu em Harnvik.

Ensinou os jovens a sustentar escudos. Reforçou as paliçadas. Cavou valas no solo congelado e organizou vigílias sob a neve.

Na primavera, os batedores avistaram um exército no horizonte.

Arvold subiu à muralha e reconheceu os estandartes.

Pertenciam ao seu próprio clã.

À frente marchava seu irmão mais velho.

Um mensageiro aproximou-se dos portões e ordenou que Harnvik se rendesse. A aldeia havia sido construída sobre terras reivindicadas pelo clã de Arvold, e seus habitantes deveriam partir antes do cair da noite.

Os anciãos olharam para o guerreiro.

— Você jurou nos proteger.

Arvold respondeu:

— Jurei protegê-los de inimigos. Aqueles homens são meu sangue.

Naquela noite, procurou uma sacerdotisa de Vardrunn.

— Posso abandonar meu posto — perguntou — se os atacantes não forem meus inimigos?

A sacerdotisa respondeu:

— Quando jurou, sabia que poderia amar aqueles que um dia ameaçariam os portões?

— Não.

— Mas jurou mesmo assim.

Arvold tentou outra saída.

— Prometi que nenhum inimigo passaria sem passar por mim. Posso abrir os portões antes que se tornem inimigos.

— O ferro não ouve apenas as palavras — disse a sacerdotisa. — Ele também recorda o significado que você lhes deu.

Arvold tentou uma terceira vez:

— Posso sair da aldeia. Se não estiver nos portões, não terei permitido que ninguém passe por mim.

A sacerdotisa olhou para a marca que surgia na mão dele.

— Pode partir. Mas algo em você permanecerá aqui para pagar o que foi prometido.

Na manhã seguinte, Arvold abandonou Harnvik.

Deu apenas dez passos antes de esquecer o rosto do ferreiro.

Depois de vinte, esqueceu o nome da mulher que lhe dera abrigo.

A cinquenta passos, já não se lembrava das crianças que ensinara a usar escudos.

Continuou andando.

Quando alcançou o acampamento de seu clã, não sabia mais por que havia estado na aldeia.

Seu irmão o recebeu com alegria.

— Arvold! Sabíamos que escolheria o próprio sangue.

O guerreiro tentou responder, mas descobriu que não reconhecia o nome pronunciado.

Cada passo que dera para longe de seu juramento havia arrancado dele uma lembrança de quem o pronunciara.

Seu irmão perguntou:

— Quem é você?

Arvold abriu a boca.

Nenhuma resposta veio.

Atrás dele, as forças de seu clã avançaram contra Harnvik.

O homem sem nome olhou para os portões e sentiu algo puxá-lo de volta. Não era memória, amor ou lealdade. Tudo isso havia sido tomado.

Era apenas o peso do juramento.

Ele correu.

Passou pelo próprio exército, atravessou lanças e golpeou escudos. Lutou contra homens que talvez tivessem sido seus amigos e parentes, embora já não soubesse distingui-los.

Ao alcançar os portões, ficou entre Harnvik e o exército.

Seu irmão gritou:

— Arvold, afaste-se!

O homem sem nome não reconheceu a palavra.

Mas respondeu:

— Ninguém passará.

Lutou até o pôr do sol.

Quando caiu, o exército havia recuado e os portões permaneciam fechados.

Os aldeões o enterraram sob uma pedra sem nome, pois ninguém sabia se o nome que ele perdera ainda lhe pertencia.

Dizem que Eyrhild recebeu sua memória e que Vardrunn recebeu seu juramento.

Nenhum dos dois devolveu o nome.

Até hoje, em Kaldren, quando alguém procura uma brecha nas próprias palavras para escapar de uma promessa, os anciãos dizem:

“Cuidado para não cumprir o juramento depois de esquecer por que o fez.”