Advertência litúrgica conhecida entre os seguidores de Morvênia. É recitada em funerais interrompidos, diante de túmulos profanados e antes da perseguição a necromantes.

Há uma canção que nenhum músico aprende.

Não é ensinada nas casas de música, nem escrita em partituras. Nenhum mestre a oferece a seus discípulos.

Ainda assim, todos os mortos a conhecem.

Ela começa com uma única nota.

Baixa.

Distante.

Tão suave que o necromante acredita ser apenas o vento atravessando a janela.

Na primeira noite, ele ignora.

Na segunda, a nota torna-se duas.

Na terceira, já é possível ouvir o arco deslizando sobre as cordas.

Não importa onde ele se esconda.

O violino não toca no mundo.

Toca dentro da distância entre aquilo que morreu e aquilo que foi obrigado a retornar.

Dizem que certa mulher perdeu o filho antes que ele aprendesse a pronunciar seu nome.

Ela conhecia ervas, símbolos e palavras proibidas. Conhecia o lugar exato onde o espírito permanece por um instante antes de seguir adiante.

Cavou a sepultura com as próprias mãos.

Acendeu velas.

Pronunciou o nome do menino ao contrário.

Quando ele abriu os olhos, a mãe chorou de alegria.

Naquela noite, ouviu a primeira nota.

O filho não chorava.

Não respirava.

Não dormia.

Apenas permanecia sentado na cama, observando a porta.

— O que você vê? — perguntou a mãe.

O menino apontou para o corredor.

— Roxo.

Na segunda noite, corvos pousaram sobre o telhado.

Nenhum grasnou.

Na terceira, as flores ao redor da casa apodreceram, mas permaneceram de pé.

Na quarta, a mulher ouviu passos acompanhando o violino.

Lentos.

Pacientes.

Um passo para cada nota.

Ela desenhou círculos de proteção nas portas. Colocou sal nas janelas. Suplicou a todos os deuses cujos nomes conhecia.

O menino continuava olhando para o corredor.

— Está mais perto — dizia.

Na quinta noite, algo bateu à porta.

Três vezes.

A mulher não respondeu.

O violino continuou tocando.

Na sexta noite, o filho falou com uma voz que não era sua:

— Ele não veio por mim.

A mãe compreendeu.

Aquilo que estava morto não cometera o crime.

O ciclo fora quebrado por mãos vivas.

Na sétima noite, a porta abriu-se sem que ninguém a tocasse.

Primeiro entraram os corvos.

Dezenas deles, caminhando em silêncio pelo chão.

Depois veio a cor violeta.

Não uma luz.

Não uma névoa.

Uma ausência tingida de roxo, tomando o formato de alguma coisa alta demais para caber sob o teto.

Atrás dela, o violino tocava.

A mulher tentou segurar o filho.

As mãos atravessaram o corpo dele como se tocassem água fria.

O menino levantou-se.

Pela primeira vez desde que retornara, sorriu.

— Mãe — disse ele com a própria voz. — Deixe-me morrer.

Ela não conseguiu.

Apertou-o contra o peito.

A coisa violeta inclinou-se.

O violino parou.

O silêncio que veio depois foi tão profundo que até o coração da mulher teve medo de continuar.

Ao amanhecer, a casa estava vazia.

O túmulo do menino encontrava-se fechado.

Sobre a terra havia duas sombras.

Uma pequena.

Outra ajoelhada ao seu lado.

Os seguidores de Morvênia dizem que a mulher ainda caminha atrás do violinista. Não está viva nem morta, pois aqueles que quebram o ciclo não recebem facilmente nenhum dos dois destinos.

Quando um necromante ergue um cadáver, ela se aproxima.

Primeiro chega o som.

Depois os corvos.

Então vem o terror em roxo.

Alguns dizem que é a própria Morvênia.

Os sacerdotes negam.

Uma deusa não precisa caminhar até aquilo que já lhe pertence.

É apenas a consequência.

A resposta natural de um ciclo ferido.

Por isso, diante de criptas abertas, corpos inquietos e nomes arrancados do descanso, os devotos recitam:

Ao necromante presenciar,
o violino há de tocar.
O terror em roxo virá buscar,
pois o ciclo não se deve quebrar.
Aquilo que morreu, morto há de ficar.

E quando a última palavra é dita, todos permanecem em silêncio.

Para ter certeza de que nenhum violino respondeu.