Lenda das matas do Ducado de Verdanha. É comum entre lenhadores, guardiões florestais e famílias que vivem próximas aos bosques mais antigos.

Na margem de um bosque de Verdanha vivia um lenhador chamado Tomás.

Era conhecido por sua força, por seu trabalho cuidadoso e por nunca cortar uma árvore jovem quando uma velha já houvesse caído.

Certa manhã, encontrou um carvalho enorme numa parte da floresta que não aparecia nos mapas dos guardas.

O tronco era largo o suficiente para que quatro homens não conseguissem abraçá-lo. Seus galhos obscureciam o céu, e suas raízes afundavam no solo como serpentes antigas.

Tomás calculou quanto receberia pela madeira.

Poderia reparar o telhado, comprar ferramentas novas e guardar dinheiro suficiente para atravessar o inverno.

Marcou o tronco com carvão e ergueu o machado.

O primeiro golpe abriu um corte na casca.

Ao retornar para casa, encontrou uma linha vermelha no próprio peito.

A marca tinha o mesmo tamanho e formato do ferimento no carvalho.

Tomás atribuiu-a a um galho.

No dia seguinte, voltou à floresta.

O corte no tronco havia desaparecido.

Confuso, golpeou novamente. Dessa vez, abriu uma ferida mais profunda.

Ao chegar em casa, sentiu uma dor nas costelas. Sob a camisa havia uma nova cicatriz.

Na terceira manhã, o carvalho estava inteiro.

Tomás chamou outros lenhadores.

Eles riram de sua história e atacaram a árvore juntos.

Ao anoitecer, o tronco estava coberto de golpes.

Na manhã seguinte, todos os cortes haviam desaparecido.

Mas Tomás acordou coberto de feridas.

Os outros homens nada sofreram.

— A árvore escolheu você — disseram.

Tomás procurou uma sacerdotisa de Meryan.

Ela observou as cicatrizes.

— Talvez tenha cortado algo que lhe pertence.

— A árvore não é minha.

— Nem toda pertença é posse.

Procurou então um sacerdote de Morvênia.

O velho tocou uma das marcas e perguntou:

— Quem foi enterrado naquela mata?

— Ninguém que eu conheça.

— Isso não responde à pergunta.

Tomás voltou ao bosque sem o machado.

Cavou junto às raízes.

Encontrou primeiro uma fivela de bronze. Depois, restos de tecido. Mais fundo, descobriu ossos humanos entrelaçados pelas raízes do carvalho.

Junto deles havia um medalhão com o nome de sua avó.

Tomás conhecia a história.

Décadas antes, sua família havia fugido de uma guerra. Muitos desapareceram na travessia das matas e jamais foram encontrados.

O carvalho crescera sobre o local onde haviam morrido.

Suas raízes passavam por entre os ossos como mãos cuidadosas.

Tomás sentou-se diante da árvore.

— Eu não sabia.

O vento moveu os galhos, mas nenhuma voz respondeu.

Ele passou a noite ali.

Ao amanhecer, retirou a marca de carvão do tronco e deixou o machado no chão.

As cicatrizes de seu corpo não desapareceram.

Tomás esperou por isso durante muitos anos, mas elas permaneceram.

Quando seus filhos perguntavam por que a árvore não o havia curado, ele respondia:

— Porque perdão não é esquecimento.

Tomás cercou o carvalho com pedras e marcou o lugar como sepultura. Plantou outras árvores ao redor e abriu uma trilha para que famílias pudessem visitar os mortos esquecidos da floresta.

Após sua morte, seus filhos enterraram o velho lenhador junto às mesmas raízes.

Dizem que o carvalho ainda permanece de pé.

Nenhum machado consegue feri-lo.

Mas todo descendente de Tomás nasce com uma pequena marca sobre o peito, semelhante a um corte já cicatrizado.

Os habitantes de Verdanha não a consideram maldição.

Chamam-na de lembrança.