Conto de advertência conhecido entre ocultistas, caçadores de espíritos e famílias que perderam alguém para promessas feitas no escuro. A criatura recebe muitos nomes, Homem de Todas as Faces, o metamorfo da morte, mas o mais comum é Dath’Bravor.
Na cidade de Velsin, três assassinatos ocorreram durante o mesmo inverno.
O primeiro foi cometido por um açougueiro.
Durante muitos anos, ele suportara as zombarias de um homem rico que comprava carne em sua loja. O cliente reclamava dos preços, insultava seus filhos e fazia questão de lembrar que poderia arruinar seu negócio com uma palavra.
Numa noite sem lua, o açougueiro ouviu uma voz atrás de si.
— Você já imaginou a faca atravessando sua garganta.
O homem virou-se.
Na porta dos fundos havia uma figura muito alta, coberta por um manto encharcado.
— Quem é você?
— Alguém que não confunde desejo com pecado.
Segundo o açougueiro, a criatura não possuía rosto.
Havia apenas pele lisa acima do pescoço, sem olhos, nariz ou boca.
Ainda assim, sua voz era clara.
— Eu não lhe pedirei que faça algo que não queira. Apenas posso retirar aquilo que o impede.
— O medo?
— O medo. A culpa. A hesitação. Todos os pequenos tiranos que mantêm um homem ajoelhado diante daqueles que odeia.
O açougueiro mandou a figura embora.
Na noite seguinte, o cliente voltou a insultá-lo.
O açougueiro percebeu que já não sentia medo.
Depois percebeu que não sentia culpa.
A hesitação foi a última coisa a desaparecer.
Quando recuperou os sentidos, a faca estava em sua mão e o homem rico encontrava-se morto sobre o balcão.
O segundo assassinato foi cometido por uma viúva.
Seu marido havia morrido deixando dívidas suficientes para tomar sua casa. O cobrador visitava-a todas as semanas, sempre sorrindo, sempre oferecendo outras formas pelas quais ela poderia pagar.
Certa madrugada, a viúva encontrou uma mulher sentada ao lado de sua cama.
Era a criatura mais bela que já vira.
Possuía os olhos de sua mãe, o sorriso de sua irmã e a voz de seu marido morto.
— Você já pensou em empurrá-lo da escada — disse a visitante.
A viúva começou a rezar.
— Não sou uma tentação — respondeu a mulher. — Tentações oferecem desejos estranhos. Eu apenas conheço os seus.
— Vá embora.
— Posso fazer com que, por uma única noite, você seja aquilo que sempre fingiu não ser.
Na semana seguinte, o cobrador caiu da escada.
A viúva jurou que não o havia empurrado.
Disse apenas ter colocado a mão sobre seu peito.
O terceiro assassinato foi cometido por um guarda.
Ele encontrara provas de que seu capitão vendia prisioneiros a mercadores estrangeiros. Durante meses, tentou reunir coragem para denunciá-lo.
Numa noite, alguém o esperava na sala dos arquivos.
A figura possuía o rosto do próprio guarda.
— Você não deseja justiça — disse ela. — Deseja vê-lo implorar.
O guarda desembainhou a espada.
Seu reflexo fez o mesmo.
— Não preciso convencê-lo. Apenas preciso dar permissão.
Na manhã seguinte, o capitão foi encontrado morto.
Seu corpo possuía vinte e sete ferimentos.
O guarda não se recordava de ter desferido os últimos vinte.
Os três assassinos foram presos.
Um sacerdote foi chamado para interrogá-los.
O açougueiro descreveu uma criatura sem rosto.
A viúva jurou que era uma mulher de beleza impossível.
O guarda afirmou que o visitante usava o rosto de quem o observava.
O sacerdote concluiu que mentiam.
Mandou que um artista desenhasse as três descrições.
O primeiro retrato mostrava uma cabeça lisa e vazia.
O segundo retratava uma mulher.
O terceiro era o rosto do guarda.
Naquela noite, o artista desapareceu.
Sobre sua mesa havia dezenas de novos desenhos.
Cada um mostrava um rosto diferente.
Homens, mulheres, crianças, idosos. Alguns sorriam. Outros choravam. Outros pareciam dormir.
A cidade reconheceu muitos deles.
Eram pessoas que haviam cometido assassinatos nos últimos cem anos.
No último desenho estava o próprio artista.
Os sacerdotes queimaram os retratos e proibiram que se pronunciasse o nome da criatura.
Isso não impediu que novas histórias surgissem.
Alguns dizem que ela não possui rosto porque jamais foi humana.
Outros dizem que possui apenas um, mas ninguém sobrevive ao vê-lo.
A verdade preservada pelos caçadores mais antigos é pior.
Ela não possui um rosto próprio.
Usa os rostos daqueles que aceitaram sua ajuda.
Cada acordo lhe concede uma expressão, uma voz e uma nova maneira de entrar no mundo.
A criatura não obriga ninguém a matar.
Não move braços.
Não guia lâminas.
Não cria ódio onde ele não existia.
Ela apenas encontra aquilo que uma pessoa esconde de si mesma e remove, um por um, todos os motivos pelos quais ainda não agiu.
Em troca, exige apenas uma coisa:
— Quando terminar, permita-me usar seu rosto.
Muitos aceitam sem compreender.
Acreditam que isso significa uma máscara, um retrato ou uma lembrança.
Depois do assassinato, começam a notar pequenas mudanças.
O reflexo sorri quando não deveriam sorrir.
A sombra move a cabeça numa direção diferente.
Estranhos juram tê-los visto em lugares onde nunca estiveram.
Então, numa noite, alguém bate à porta de uma nova vítima usando a aparência daquele que fez o acordo.
Por isso, quando uma voz no escuro lhe disser que conhece seus desejos, não tente provar que ela está errada.
Não discuta.
Não pergunte o que oferece.
E, acima de tudo, não olhe para seu rosto.
Talvez ele seja o seu.
Talvez seja o de alguém que ama.
Ou talvez seja um rosto que você ainda não tomou de ninguém.