História infantil de Yashima, tradicionalmente contada no início do inverno. Em algumas versões, a raposa é um Yorami; em outras, é apenas uma raposa faminta.
Na aldeia de Minamori vivia uma família conhecida por possuir o maior depósito de arroz da região.
O pai negociava nos mercados. A mãe cuidava das contas. Seus dois filhos ajudavam a separar os melhores grãos para venda e os mais quebrados para consumo da casa.
Certa tarde, quando a primeira neve começou a cair, uma pequena raposa apareceu diante da porta.
Ela era magra, tinha o pelo molhado e carregava uma folha presa entre os dentes.
O filho mais novo abriu a porta.
A raposa deixou a folha no chão e inclinou a cabeça.
Sobre a folha havia três grãos de arroz.
— Acho que ela quer trocar — disse o menino.
A mãe observou o animal.
— Três grãos não compram uma tigela.
A raposa empurrou a folha para a frente.
— Talvez esteja pedindo ajuda — disse a filha mais velha.
O pai riu.
— Se alimentarmos cada animal da floresta, não sobrará nada para nós.
Fechou a porta.
Na manhã seguinte, a raposa voltou.
Desta vez, trouxe cinco grãos.
A filha abriu a porta, mas o pai surgiu atrás dela.
— Não a incentive.
A raposa abaixou a cabeça e partiu.
Na terceira manhã, retornou com sete grãos e uma pequena moeda de cobre, escurecida pelo tempo.
A mãe tomou a moeda.
— Isto vale menos que uma tigela.
— Mas vale alguma coisa — disse o filho.
O pai atirou a moeda na neve.
— Animais não compram comida.
A raposa recolheu a moeda e desapareceu entre as árvores.
Naquela noite, uma tempestade cobriu os caminhos.
A família permaneceu tranquila, pois seu depósito estava cheio.
A mãe preparou uma panela de arroz. Quando o alimento ficou pronto, serviu uma porção para cada pessoa.
O arroz estava branco, quente e perfumado.
Mas, depois da primeira colherada, todos continuaram com fome.
Comeram uma segunda tigela.
Depois uma terceira.
A panela esvaziou, e nenhuma barriga parecia preenchida.
— Deve ser um lote ruim — disse o pai.
Abriu outro saco.
O resultado foi o mesmo.
Durante sete dias, a família cozinhou arroz de todos os seus depósitos. O alimento possuía gosto, cheiro e textura, mas não sustentava ninguém.
Enquanto isso, a neve impedia que chegassem ao mercado.
A fome começou a enfraquecer as crianças.
Na oitava noite, alguém arranhou a porta.
Era a raposa.
A filha mais velha abriu-a antes que os pais pudessem impedir.
O animal carregava a mesma folha, agora coberta por nove grãos.
A raposa empurrou-a para dentro da casa.
O filho mais novo pegou os grãos e colocou-os numa pequena panela.
— Isso não alimentará ninguém — disse o pai.
Quando ficaram prontos, as crianças dividiram os nove grãos.
Pela primeira vez em uma semana, sentiram a fome diminuir.
A mãe ajoelhou-se diante da raposa.
— O que deseja?
O animal olhou para o depósito.
A família entendeu.
Carregaram uma tigela cheia até a porta e colocaram-na diante da visitante.
A raposa comeu apenas metade. Depois empurrou o restante de volta para as crianças.
Na manhã seguinte, o arroz da família voltou a alimentar.
O pai correu para o depósito e começou a contar os sacos.
Nenhum havia desaparecido.
Ainda assim, naquela primavera, a família construiu um pequeno abrigo junto à estrada. Nele, mantinha água, arroz e lenha para viajantes, animais e qualquer visitante que surgisse durante o inverno.
Quando perguntavam ao pai se a raposa era um Yorami, ele respondia:
— Talvez.
— E se fosse apenas uma raposa?
Ele então colocava outra tigela no abrigo.
— Nesse caso, ela estava com fome do mesmo jeito.