Sátira popular de Bravória, surgida após os primeiros contatos frequentes com os elfos de Arvandar. Os nomes variam conforme a região, e estudiosos élficos insistem que nenhum príncipe conhecido corresponde ao protagonista.

Duas aldeias vizinhas discutiam pela posse de uma ponte.

A aldeia do leste afirmava tê-la construído.

A aldeia do oeste dizia ter fornecido toda a madeira.

A ponte era a única passagem segura sobre o rio, e ambas cobravam pedágio dos viajantes. Quando um cobrador do leste aparecia, o do oeste expulsava-o. Quando o cobrador do oeste retornava, trazia três primos e uma vara.

Depois de meses de brigas, decidiram pedir ajuda a um príncipe élfico que visitava Bravória.

O príncipe era conhecido por sua sabedoria, sua educação impecável e sua capacidade de discutir o formato de uma folha durante três tardes sem repetir um argumento.

Os aldeões apresentaram o caso.

O príncipe ouviu ambos os lados.

Examinou a ponte.

Mediu a largura do rio.

Perguntou que árvores haviam fornecido a madeira, quem colocara cada pedra e quais eram os direitos de travessia antes da construção.

Ao final de sete dias, declarou:

— A questão é complexa. Retornarei a Arvandar, consultarei nossos arquivos e voltarei dentro de quinze anos com uma decisão cuidadosamente fundamentada.

Os aldeões ficaram horrorizados.

— Quinze anos? — perguntou a prefeita do leste.

— É um prazo modesto — respondeu o príncipe. — Algumas das testemunhas ainda estarão vivas.

O príncipe partiu.

No primeiro ano, as duas aldeias continuaram brigando.

No segundo, uma enchente destruiu metade da ponte.

Como nenhuma delas queria pagar sozinha pelo reparo, a travessia permaneceu fechada.

No terceiro ano, um barqueiro começou a transportar pessoas pelo rio.

Enriqueceu rapidamente.

No quarto, o barqueiro construiu uma hospedaria.

No quinto, a hospedaria tornou-se um pequeno mercado.

No sexto, comerciantes passaram a preferir o barco à ponte.

No sétimo, as duas aldeias perceberam que estavam perdendo dinheiro.

Reuniram-se para discutir.

A reunião terminou em outra briga.

No oitavo ano, os filhos dos antigos prefeitos casaram-se.

No nono, o casal construiu uma nova ponte ao lado da velha, utilizando pedra da aldeia do leste e madeira da aldeia do oeste.

No décimo, aboliram o pedágio para atrair comerciantes.

No décimo primeiro, as duas aldeias cresceram ao redor do mercado.

No décimo segundo, elegeram um único conselho.

No décimo terceiro, derrubaram o que restava da primeira ponte.

No décimo quarto, inauguraram uma terceira, muito maior, e colocaram no centro uma estátua do barqueiro, que agora era velho e dizia ter resolvido o conflito sem jamais compreender como.

No décimo quinto ano, o príncipe élfico retornou.

Trazia:

  • seis volumes de documentos;
  • vinte e três mapas;
  • nove pareceres jurídicos;
  • uma árvore genealógica dos construtores;
  • uma análise da composição da madeira original;
  • um tratado sobre a natureza filosófica das pontes.

Encontrou uma única cidade onde antes havia duas aldeias.

Perguntou pela ponte disputada.

Disseram-lhe que fora destruída.

Perguntou pelos prefeitos.

Ambos estavam mortos.

Perguntou pelos cobradores.

Um administrava uma padaria; o outro perdera a vara e já não se recordava por que a carregava.

O príncipe abriu o primeiro volume.

— Depois de cuidadosa consideração, concluí que a aldeia do leste possuía direito sobre sessenta por cento da ponte, enquanto a do oeste deveria receber quarenta por cento das taxas.

A prefeita da nova cidade agradeceu educadamente.

— Excelente decisão, alteza.

— Deseja que eu a registre?

— Naturalmente.

— E quando pretendem aplicá-la?

A prefeita pensou por um instante.

— Podemos refletir por quinze anos e retomar o assunto com maior clareza.

O príncipe considerou a resposta profundamente sensata.

Desde então, em Bravória, quando alguém adia uma decisão até que o problema se resolva sozinho ou se transforme em outro completamente diferente, costuma-se dizer:

“Mandaram buscar o príncipe e seus quinze anos.”