Conto popular preservado em diferentes regiões de Basiris. Cada povo atribui feitos distintos à feiticeira, mas quase todas as versões terminam com a mesma promessa.

Antes que os reis aprendessem a contar os anos, antes que as estradas recebessem nomes e antes que os homens distinguissem uma bênção de uma maldição, caminhava pelo mundo uma mulher chamada Morgana.

Alguns diziam que era jovem.

Outros juravam que já nascera velha.

Havia aqueles que a descreviam com cabelos negros, longos como uma noite de inverno. Outros afirmavam que seus cabelos eram brancos, pois guardavam a luz de todas as luas que já haviam desaparecido.

Todos concordavam apenas quanto aos olhos.

Quem olhava para eles recordava alguma coisa que ainda não havia acontecido.

Morgana não possuía reino, mas reis abriam seus portões quando ela chegava. Não carregava coroa, mas generais abaixavam a cabeça diante de sua sombra.

Nunca pedia passagem.

Nunca precisava.

Conta-se que, durante o Ano da Cinza, o céu permaneceu fechado durante nove meses. As plantações morreram, os poços secaram e até os sacerdotes ficaram sem palavras para oferecer aos famintos.

Morgana subiu sozinha a montanha mais alta.

Durante três dias, discutiu com as nuvens.

Na quarta manhã, a chuva caiu.

Choveu tanto que os rios transbordaram, as casas foram arrastadas e os mortos deixaram seus túmulos, levados pela água.

Quando os sobreviventes perguntaram por que ela não fizera uma chuva mais branda, Morgana respondeu:

— Pediram-me água. Não sabedoria.

Em outra terra, uma doença transformava a respiração dos enfermos em mariposas negras. Cada inseto que saía da boca de um moribundo levava a enfermidade para outra casa.

Morgana recolheu todas as mariposas numa caixa de prata.

Fechou a tampa com sete fios de seu próprio cabelo e enterrou a caixa sob a torre de um príncipe.

A doença terminou naquela noite.

O príncipe viveu por muitos anos.

Seus filhos também.

Mas desde então, ninguém daquela linhagem pôde dormir sem escutar asas batendo sob o chão.

Também dizem que Morgana encontrou uma cidade cercada por um exército tão vasto que suas fogueiras pareciam estrelas caídas.

A rainha da cidade implorou por auxílio.

— Salve meu povo, e tudo que existe dentro destas muralhas será seu.

Morgana caminhou até o campo inimigo carregando apenas uma tigela vazia.

Ao amanhecer, não havia exército.

Armaduras permaneciam espalhadas sobre a relva, ainda fechadas, mas vazias por dentro.

Quando a rainha perguntou o que acontecera aos homens, Morgana mostrou-lhe a tigela.

Dentro dela havia milhares de pequenas vozes, gritando tão baixo que apenas uma rainha poderia ouvi-las.

— Eles são seus agora? — perguntou a soberana.

— Tudo dentro das muralhas seria meu — respondeu Morgana. — Foi o que prometeu.

Naquela noite, todas as crianças da cidade perderam a voz.

Não se sabe o que Morgana fez com elas.

Outros contos falam de feitos ainda maiores.

Dizem que ela ensinou uma montanha a caminhar.

Que obrigou um rio a recordar sua antiga nascente.

Que encontrou a morte sentada sob uma árvore e venceu-a em três jogos diferentes, embora ninguém saiba qual delas trapaceou.

Que arrancou uma estrela do céu para iluminar uma estrada e depois se recusou a devolvê-la.

Que amou alguém por cem anos e, quando esse amor morreu, apagou seu nome de todas as línguas.

Entretanto, por cada aldeia salva, outra era abandonada.

Por cada doença curada, uma nova febre surgia em terras distantes.

Por cada monstro aprisionado, alguma porta permanecia aberta.

Morgana nunca fazia algo sem propósito.

Mas seu propósito raramente era o mesmo daqueles que pediam sua ajuda.

Certo dia, ela chegou a uma pequena aldeia onde ninguém a reconheceu.

Não havia reis, muralhas ou templos. Apenas camponeses, animais e casas feitas de madeira escura.

Uma menina encontrou Morgana sentada junto ao poço.

— A senhora é uma feiticeira? — perguntou.

— Já me chamaram de coisas piores.

— É verdade que pode fazer qualquer coisa?

— Não.

A menina pareceu decepcionada.

— O que não pode fazer?

Morgana observou as pessoas trabalhando.

Um velho consertava um telhado. Uma mulher ensinava o filho a escrever. Dois irmãos brigavam por uma cesta de maçãs. Um cão dormia ao sol.

— Ainda não consigo impedir que as pessoas destruam aquilo que amam.

— Mas aprenderá?

Morgana sorriu.

— Sim.

Naquela noite, ela partiu.

Antes de atravessar a última casa, voltou-se para a menina e disse:

— O mundo ainda não está pronto para aquilo que desejo oferecer.

— Então para onde vai?

— Aprender.

— E depois?

Morgana olhou para o horizonte.

Dizem que, naquele instante, todas as fogueiras da aldeia ficaram violetas, embora nenhuma pessoa tenha sentido calor.

— Depois eu voltarei.

— Quando?

A resposta muda em cada versão da história.

Alguns dizem que Morgana retornará quando a última estrela desaparecer.

Outros, quando os mortos superarem os vivos.

Há quem diga que ela voltará quando os reis implorarem por correntes e os prisioneiros as chamarem de bênçãos.

Os mais antigos preservam outra resposta:

— Voltarei quando a magia estiver cansada de pertencer a todos.

Na manhã seguinte, a menina não se recordava do rosto da visitante.

Apenas de sua promessa.

É por isso que, quando uma fogueira muda de cor sem motivo, quando um rio corre contra a corrente ou quando uma pessoa sonha com acontecimentos que ainda não ocorreram, os mais velhos fecham portas e janelas.

Não por medo de que Morgana esteja próxima.

Mas porque talvez ela nunca tenha ido embora.