Conto popular de origem incerta, preservado em diferentes regiões de Basiris. Os nomes da menina, da fada e da criatura sob a montanha mudam conforme o narrador. Todas as versões, porém, recordam as três nomeações.
Antes que os bosques fossem divididos por estradas, havia uma fada que morava entre as raízes de uma amoreira branca.
Quando abriu os olhos pela primeira vez, ela já conhecia seu nome.
Não precisou aprendê-lo com a mãe, encontrá-lo escrito numa folha ou escutá-lo dos pássaros. O nome estava dentro dela como o perfume está dentro da flor e o caminho do mar está dentro do rio.
Chamava-se Sivela.
Sivela sabia despertar sementes adormecidas, remendar teias de aranha e convencer gotas de orvalho a não cair antes do amanhecer. Era pequena o bastante para dormir numa noz vazia e leve o bastante para caminhar sobre a neve sem deixar pegadas.
Não sabia fazer fogo.
Não sabia produzir luz.
E jamais havia conduzido alguém para fora do bosque.
Certa noite de inverno, uma menina chamada Nara afastou-se da estrada enquanto recolhia gravetos. A neve cobriu suas pegadas, o vento apagou a luz do céu e todas as árvores começaram a parecer iguais.
Nara caminhou até as pernas não obedecerem mais.
Sentou-se junto à amoreira branca e começou a chorar.
Sivela saiu de sua casa entre as raízes.
— Por que derrama água no inverno? — perguntou. — Já existe gelo suficiente no mundo.
Nara levantou os olhos.
— Estou perdida.
— Todos estão. Alguns apenas ainda reconhecem a estrada.
— Você sabe onde fica minha casa?
Sivela não sabia.
Mas a menina tremia, e as fadas, embora tenham muitos defeitos, raramente suportam ver uma pergunta morrer sem resposta.
— Sei onde o bosque termina — disse Sivela. — Depois disso, a estrada será problema seu.
As duas partiram.
Sivela pediu às raízes que afastassem os espinhos. Convenceu a neve a permanecer suspensa por alguns instantes e perguntou às corujas se tinham visto fumaça acima das árvores.
Nenhuma delas respondeu.
Ainda assim, a fada continuou andando ao lado da menina.
Quando Nara sentia medo, Sivela contava quantas sementes dormiam sob a terra. Quando o frio apertava, descrevia os frutos que nasceriam na primavera. Quando um ruído surgia entre as árvores, insultava-o até que parecesse pequeno demais para ser perigoso.
Depois de muitas horas, encontraram uma trilha.
Nara viu ao longe a primeira janela de sua aldeia.
— Você me trouxe de volta — disse.
— Eu a trouxe até onde a estrada poderia encontrá-la.
— É a mesma coisa.
— Somente para quem não conhece estradas.
A menina ajoelhou-se diante da fada.
— Como você se chama?
— Nasci Sivela.
Nara pensou por alguns instantes.
— Esse é um belo nome. Mas, para mim, você é Candeia. Enquanto esteve comigo, a noite não pareceu tão escura.
No momento em que pronunciou o nome, uma luz acendeu-se no peito da fada.
Primeiro foi pequena como uma brasa.
Depois percorreu seus braços, seus cabelos e suas asas. A neve ao redor brilhou como se guardasse estrelas sob a superfície.
Nara recuou, assustada.
Sivela — que também era Candeia — levou as mãos ao novo brilho e começou a rir.
As fadas riem quando enganam alguém, quando descobrem alguma coisa ou quando recebem um presente grande demais para caber no silêncio. Nara jamais soube qual daqueles risos escutou.
Candeia curvou-se diante da menina até a testa tocar a neve.
— Você não sabia o que estava me dando.
— Eu lhe dei apenas um nome.
— É por isso que lhe sou grata. Se soubesse, talvez tivesse pedido algo em troca.
A fada conduziu Nara até a porta de casa. Antes de partir, colocou nas mãos da menina uma semente branca.
— Plante-a quando precisar de mim. Onde ela florescer, encontrarei você.
Durante muitos anos, Nara guardou a semente e contou a história apenas para sua mãe. Sivela continuou vivendo no bosque, mas agora podia acender as próprias asas. Viajantes perdidos começaram a enxergar uma pequena luz entre as árvores. Aqueles que a seguiam encontravam uma estrada antes do amanhecer.
Por esse motivo, Candeia nunca esqueceu Nara.
Uma única voz lhe dera aquele nome.
E uma única voz havia colocado luz dentro dele.
Muitos invernos depois, algo despertou sob as colinas.
Era uma criatura antiga, coberta de escamas escuras e raízes petrificadas. Alguns narradores dizem que era um dragão. Outros afirmam que era a última serpente nascida antes da lua. Há ainda quem diga que se tratava de uma montanha que aprendera a sentir fome.
Seu nome foi esquecido.
Sua força, não.
Quando a criatura respirou, o gelo derreteu sobre sete colinas. Quando abriu os olhos, animais fugiram para além dos rios. E quando tentou erguer-se, descobriu que espinhos negros haviam crescido ao redor de seu corpo durante o longo sono.
Os espinhos bebiam fogo.
Quanto mais a criatura queimava, mais fortes eles se tornavam.
Candeia viu o brilho sob a terra e desceu pelas raízes. Era pequena diante daquele ser, mas conhecia a linguagem das sementes e das coisas que crescem sem serem convidadas.
Durante três noites, conversou com os espinhos.
Na primeira, prometeu-lhes água.
Na segunda, ofereceu-lhes terra fértil.
Na terceira, contou-lhes que do lado de fora havia um céu inteiro onde poderiam crescer.
Os espinhos soltaram a criatura e seguiram Candeia até a superfície.
Livre, o ser antigo inclinou a cabeça.
— Pequena luz — disse —, qual é o seu nome?
— Nasci Sivela. Uma menina chamou-me Candeia.
A criatura observou as asas brilhantes.
— Candeias iluminam uma casa. Você abriu a noite para algo que dormia antes dos reinos. Diante de mim, será chamada Aurora Entre os Ramos.
O segundo nome recebido atravessou a fada como um raio atravessa uma árvore.
Sua luz alcançou as raízes mais profundas. As colinas brilharam por dentro, a neve recuou e flores brancas se abriram em pleno inverno. Por um instante, todos os animais do bosque acreditaram que o sol havia nascido sob a terra.
A fada caiu de joelhos.
Quando tornou a erguer-se, já não cabia numa noz. Tinha a altura de uma criança e asas largas como folhas de uma porta.
— Também não sabia o que me dava? — perguntou ela.
A criatura fechou os olhos.
— Eu sabia.
Aurora Entre os Ramos curvou-se mesmo assim.
Como agradecimento, conduziu o ser antigo até um vale onde os espinhos jamais poderiam alcançá-lo. Algumas versões afirmam que o serve até hoje. Outras dizem que lhe ofereceu apenas uma noite de céu aberto, pois uma dádiva feérica nem sempre dura o tempo que aquele que a recebe desejaria.
Na primavera seguinte, flores nasceram sobre as sete colinas.
Pessoas vieram de aldeias distantes para vê-las.
Encontraram também viajantes que juravam ter sido salvos por uma mulher alada coberta de luz. Nenhum deles conhecia Sivela. Nenhum ouvira Nara chamá-la de Candeia. Poucos tinham visto a criatura sob a montanha.
Por isso, deram-lhe outro nome.
Chamaram-na Senhora das Lanternas Perdidas.
Primeiro foi um lenhador.
Depois sua família.
Depois uma aldeia inteira.
Mercadores repetiram o nome nas estradas. Mães o ensinaram às crianças. Marinheiros passaram a pronunciá-lo quando a névoa escondia a costa. Sacerdotes incluíram a Senhora das Lanternas Perdidas em orações que nenhuma fada lhes havia pedido.
Cada pessoa imaginava uma figura diferente.
Para alguns, ela era uma pequena luz brincalhona.
Para outros, uma mulher de asas brancas.
Havia quem a chamasse de guardiã das estradas. Outros diziam que governava todos os caminhos dos quais os mapas se esqueciam.
Quanto mais o nome era repetido, mais longe sua luz alcançava.
Quando cem pessoas acreditaram nela, podia iluminar um bosque.
Quando mil pessoas a chamaram, podia abrir uma estrada através da tempestade.
Quando seu nome chegou a terras onde ela nunca estivera, surgiu sobre sua cabeça uma coroa feita de pequenas chamas.
Mas uma coisa estranha também aconteceu.
Sempre que alguém pronunciava Senhora das Lanternas Perdidas, a fada escutava.
Não importava a distância.
Não importava se era súplica, agradecimento ou maldição.
O nome vinha até ela carregando aquilo que as pessoas esperavam que fosse.
Estradas começaram a curvar-se em sua direção. Crianças sonhavam com sua luz. Pessoas que desejavam desaparecer encontravam portas para o bosque, e algumas jamais regressavam.
Aquela que vivera numa noz agora possuía um trono entre raízes de árvores que ninguém conseguia contar.
Foi então que Nara, já velha, escutou viajantes falarem da Senhora das Lanternas Perdidas.
Reconheceu na história a fada que a conduzira para casa.
Nara retirou de um cofre a semente branca que guardara durante toda a vida. Plantou-a junto à janela e regou-a com a água que havia preparado para o próprio funeral.
A semente floresceu naquela mesma noite.
O céu desapareceu sob milhares de luzes.
A Senhora das Lanternas Perdidas surgiu diante da casa. Era alta como as árvores e carregava sobre a cabeça uma coroa de chamas. Suas asas cobriam as estrelas. Vozes de viajantes ecoavam em seus passos.
Nara sentiu medo.
Então chamou:
— Candeia.
Todas as luzes se apagaram, menos uma.
Por um instante, a grande senhora tornou-se novamente pequena. Sentou-se no parapeito da janela e deixou as pernas balançarem como fizera quando ainda cabia sob a amoreira.
— Faz muito tempo que ninguém me chama assim — disse a fada.
— Ainda é seu nome?
— É o nome que me recorda de você.
— E Sivela?
A fada permaneceu em silêncio por tanto tempo que Nara pensou que ela não responderia.
— Sivela é quem nasceu. Candeia é quem você acreditou que eu poderia ser. Aurora Entre os Ramos é o poder que uma criatura antiga viu em mim. A Senhora das Lanternas Perdidas é aquilo que o mundo espera encontrar quando olha para a escuridão.
— Qual delas é você?
— Todas escutam quando são chamadas.
Nara olhou para a coroa que começava a reaparecer sobre a cabeça da amiga.
— É grata às pessoas pelo último nome?
A fada sorriu.
— Como não seria? Deram-me mais do que sabiam possuir.
— Então sempre fará aquilo que pedirem?
— Gratidão não é obediência.
Naquela noite, Candeia acompanhou Nara numa última caminhada. A velha não contou a ninguém por onde passaram. Pela manhã, sua cama estava vazia e uma amoreira branca crescia diante da casa.
Alguns dizem que Nara morreu.
Outros, que ainda caminha pelas estradas que não aparecem nos mapas.
Depois de seu desaparecimento, a história da Senhora das Lanternas Perdidas tornou-se ainda maior. Reis mandaram erguer faróis em sua homenagem. Viajantes pronunciaram seu nome diante de encruzilhadas. Crianças acenderam velas nas janelas para pedir que ela trouxesse seus pais de volta.
Pouquíssimos continuaram a chamá-la de Candeia.
Ninguém, além das fadas, recordava Sivela.
É por isso que os mais velhos ensinam:
“Uma voz pode dar a uma fada uma luz. Uma voz poderosa pode dar-lhe uma aurora. Mas vozes suficientes podem dar-lhe um trono.”
E quando uma criança inventa um nome para aquilo que viu entre as árvores, os prudentes não riem.
Perguntam primeiro se mais alguém já começou a chamá-lo da mesma maneira.