Antiga lenda de Aetheryon, preservada em poemas, canções e fragmentos anteriores à unificação da ilha. Algumas versões descrevem as quatro fadas celestes como amantes; outras, como irmãs ou companheiras inseparáveis. Nenhuma das versões mais antigas preserva o nome da lua que caiu.

Antes que os elfos aprendessem a dividir o tempo em eras, o céu de Basiris possuía quatro luzes.

Durante o dia, ardia Titania.

Durante a noite, dançavam Selis, Doran e uma terceira lua cujo nome ninguém mais conhece.

As quatro eram fadas.

Não fadas semelhantes àquelas que dormem em flores ou atravessam bosques sem mover as folhas. Eram antigas mesmo quando as primeiras sementes ainda aprendiam a reconhecer a chuva. Seus corpos podiam ser vistos de qualquer parte do mundo, e a passagem de cada uma determinava marés, estações, sonhos e nascimentos.

Titania carregava o fogo.

Selis e Doran carregavam a noite.

A terceira lua carregava aquilo que existe entre ambos: a última claridade do entardecer, a primeira promessa da manhã e o instante em que ninguém sabe dizer se o céu ainda pertence ao dia.

Os primeiros poemas dizem que as quatro se amavam.

Alguns sacerdotes posteriores corrigiram os versos e escreveram que eram apenas grandes amigas. Outros afirmaram que eram irmãs nascidas da mesma aurora. Há versões que descrevem um quadrisal, versões que mencionam promessas separadas e versões que dizem que as fadas celestes não conheciam qualquer diferença entre amizade, amor e órbita.

Isso pouco importa para o final da história.

Todas concordam que eram próximas.

E todas concordam que Titania era mais próxima da lua que seria esquecida.

Quando o dia terminava, essa lua surgia antes das demais e caminhava ao lado do Sol até o último limite do horizonte. Quando a manhã chegava, era a última a partir. Por alguns instantes, ambas permaneciam juntas no céu, uma coberta de fogo e a outra pálida de luz.

Selis e Doran raramente compartilhavam aqueles momentos.

As luas não produziam a própria claridade.

Segundo a lenda, elas brilhavam porque Titania continuava a contemplá-las mesmo quando atravessava o outro lado do mundo. A luz lunar era a memória do olhar do Sol.

Titania contemplava as três.

Mas demorava-se sobre uma delas.

Selis percebeu primeiro.

Doran fingiu não perceber.

Durante muito tempo, nada disseram. Continuaram cruzando a noite, governando as marés e recebendo canções dos povos abaixo. Ainda assim, começaram a contar quantos instantes Titania oferecia a cada uma.

Contaram os amanheceres.

Contaram os crepúsculos.

Contaram as vezes em que Titania parecia atravessar o céu mais lentamente para permanecer perto da terceira lua.

É assim que o ciúme cresce entre criaturas imortais.

Mortais contam dias.

Imortais podem contar séculos.

Selis procurou Doran numa noite sem estrelas.

— Se continuar assim — disse —, em breve haverá apenas uma lua no coração do Sol.

— Ainda haverá três no céu — respondeu Doran.

— Por quanto tempo?

Doran não respondeu.

O plano que elaboraram perdeu-se juntamente com o nome da terceira lua.

Uma versão afirma que Selis recolheu palavras pronunciadas por amantes durante o sono e com elas fabricou uma mentira impossível de distinguir de uma promessa.

Outra diz que Doran roubou o reflexo da terceira lua e o fez aparecer sobre um mar proibido, convencendo Titania de que sua companheira mantinha encontros ocultos com alguma coisa além do mundo.

Há um poema no qual ambas dizem ao Sol que a terceira lua deseja tomar seu lugar e tornar-se a única luz de Basiris.

Uma canção infantil conta apenas que Selis fez uma pergunta, Doran respondeu com outra, e entre as duas respostas Titania encontrou uma traição que jamais havia acontecido.

Nenhuma versão explica exatamente o que fizeram.

Todas afirmam que funcionou.

No último crepúsculo em que as quatro foram vistas juntas, Titania aguardou a terceira lua no limite do céu.

Selis permaneceu distante.

Doran escondeu parte do rosto.

A lua esquecida aproximou-se do Sol como fizera em todos os crepúsculos anteriores.

Titania não a recebeu.

— Diga-me que é mentira — ordenou.

A lua não sabia qual mentira deveria negar.

— Diga-me que nunca desejou aquilo que me disseram.

A lua não sabia o que haviam dito.

— Diga-me que ainda é quem eu acreditava que fosse.

A lua tentou responder.

Alguns narradores afirmam que Selis roubara sua voz. Outros dizem que Doran modificara o significado de cada palavra antes que chegasse aos ouvidos de Titania. Talvez a lua tenha falado perfeitamente e a fúria do Sol apenas não tenha permitido que fosse escutada.

Titania pronunciou então a frase que encerrou o primeiro céu:

— Não quero mais olhar para você.

O Sol desviou o rosto.

Naquela noite, a terceira lua brilhou menos.

Não muito.

Apenas o suficiente para que os astrônomos ajustassem seus instrumentos e os poetas perguntassem se havia névoa sobre as montanhas.

Na noite seguinte, tornou a enfraquecer.

E na seguinte.

Sem o olhar de Titania, sua luz não se renovava. A lua continuava percorrendo o céu, mas a cada passagem parecia mais distante, menor e mais cansada.

Ela procurou Selis.

— Digam-lhe a verdade.

Selis respondeu:

— Se Titania acreditou tão depressa, talvez nunca a tenha conhecido.

Ela procurou Doran.

— Digam-lhe o que fizeram.

Doran respondeu:

— Se confessarmos agora, perderemos o pouco que ainda nos oferece.

A terceira lua procurou novamente Titania.

O Sol recusou-se a vê-la.

Passaram-se anos.

Depois décadas.

Depois séculos.

As pessoas abaixo continuaram utilizando o nome da lua em calendários, canções e promessas. Durante algum tempo, isso pareceu sustentá-la. Mesmo pálida, ainda era reconhecida. Mesmo distante, ainda recebia orações.

Mas povos também desviam o olhar daquilo que deixa de responder.

Agricultores retiraram sua passagem dos calendários porque sua luz já não marcava o plantio.

Navegadores deixaram de procurá-la porque já não iluminava as correntes.

Amantes pararam de jurar sob sua presença porque mal conseguiam encontrá-la no céu.

Sacerdotes esqueceram parte de seus hinos.

Copistas encontraram um nome que já não compreendiam e o substituíram por palavras mais conhecidas.

As crianças foram as últimas a reconhecê-la.

Apontavam para um brilho quase invisível e perguntavam:

— Qual é o nome daquela lua?

Os adultos ofereciam respostas diferentes.

Cada região preservava um som.

Cada templo, uma grafia.

Cada família, uma lembrança.

Nenhuma delas chamava a mesma fada.

O nome fragmentou-se antes de desaparecer.

E, à medida que desaparecia, a lua tornava-se menor.

Enquanto Titania a vira, ela brilhara.

Enquanto os povos a nomeavam, ela permanecia.

Quando perdeu o olhar do Sol e o reconhecimento do mundo, o próprio céu começou a esquecer como sustentá-la.

Na última noite, parecia pouco maior que uma estrela.

Selis aproximou-se.

— Não era isso que desejávamos.

A lua não respondeu.

Doran aproximou-se.

— Diga-nos como reparar.

A lua perguntou:

— Como me chamo?

Selis abriu a boca.

Doran procurou na memória.

Nenhuma das duas conseguiu responder.

Talvez naquele momento tenham compreendido que também haviam contado a mentira por tempo demais. Talvez o nome estivesse preso na parte delas que ainda sentia ciúme. Talvez Titania fosse a única que poderia recordá-lo e continuasse recusando-se a olhar.

A lua começou a cair.

Não caiu como montanha ou como mundo.

Era tão pequena que os habitantes abaixo a confundiram com uma estrela cadente. Um risco sem luz atravessou o céu e desapareceu entre as nuvens que cercavam Aetheryon.

No mesmo instante, as marés mudaram.

Animais despertaram de sonhos que não compreenderam.

Todas as pedras da ilha emitiram um som baixo, semelhante a alguém tentando recordar uma canção.

O lugar da queda varia conforme a tradição.

Os habitantes de Arvandar dizem que ocorreu numa floresta que depois perdeu todas as folhas.

Antigos textos de Caelthir falam de uma cratera escondida sob um lago escuro.

Comunidades das montanhas afirmam que a lua atravessou a rocha e permanece nas profundezas, cercada por túneis que mudam de direção quando alguém tenta mapeá-los.

As Mouras contam poucas histórias sobre o acontecimento.

As que contam não concordam entre si.

Em todas as versões élficas, alguma coisa se abriu no lugar onde a lua caiu.

Alguns dizem que era uma esfera de pedra branca, pequena o bastante para caber numa casa. Outros descrevem uma pérola negra coberta de rachaduras douradas. Há relatos de uma flor feita de cinzas e de um ovo que pulsava ao ritmo das marés.

Quando aquilo se partiu, uma mulher saiu de dentro.

Tinha a forma de uma fada, mas não carregava luz suficiente para regressar ao céu.

Não possuía asas visíveis.

Seus cabelos eram escuros como uma noite anterior às estrelas, e marcas pálidas percorriam sua pele como antigas linhas lunares. Nos olhos, refletiam-se quatro luzes, embora apenas três permanecessem no firmamento.

Um pastor que presenciara a queda perguntou:

— Quem é você?

A mulher tentou pronunciar um nome.

Nenhum som saiu de sua boca.

Tentou novamente.

Recordou o calor de Titania, as vozes de Selis e Doran, os primeiros mares e milhões de pessoas que um dia haviam olhado para ela. Recordou ser amada. Recordou ser acusada. Recordou cair.

Não recordou como era chamada.

Então respondeu:

— Sou aquilo que o céu não conseguiu guardar.

O pastor ajoelhou-se, acreditando estar diante de uma deusa.

A mulher pediu que não o fizesse.

— Sou uma fada — disse. — Apenas uma fada que perdeu a altura.

O pastor perguntou de onde viera.

Ela apontou para as luas.

— De uma casa que já não possui porta para mim.

Depois caminhou até uma caverna e desapareceu sob a terra.

Foi a primeira Moura.

Isso, ao menos, é o que dizem os elfos.

Não se sabe se a Moura era filha da lua, nascida de sua tristeza.

Não se sabe se era sua sombra, liberta quando o último brilho morreu.

Não se sabe se a lua se partiu como uma casca e revelou a forma que sempre existira em seu interior.

Alguns acreditam que a fada celestial morreu na queda e que outra criatura herdou suas memórias. Outros afirmam que não houve nascimento algum: a mulher era a própria lua, reduzida a uma forma pequena o bastante para que Aetheryon pudesse sustentá-la.

As Mouras que surgiram depois teriam aprendido com ela.

Aprenderam a fazer morada sob pedras, pois a primeira delas viera do céu através da rocha.

Aprenderam a guardar objetos, nomes e promessas, pois sua ancestral perdera aquilo que ninguém havia protegido.

Aprenderam a respeitar pactos, pois uma mentira entre seres imortais destruíra uma parte do firmamento.

E aprenderam a esconder-se, pois ser vista por alguém que deixa de amar pode ser mais terrível que jamais ter sido encontrada.

Quando Titania viu o risco atravessar o céu, voltou finalmente o rosto.

Era tarde.

Procurou a terceira lua por toda a noite, mas o Sol não sabe encontrar aquilo que não produz luz. Ao amanhecer, percorreu Aetheryon com raios tão intensos que florestas inteiras floresceram fora de estação.

Não a encontrou.

Desde então, Titania examina a ilha todas as manhãs.

É por isso, dizem os poetas, que o primeiro raio do dia toca Aetheryon antes de aquecer o restante do mundo.

Selis e Doran também procuram.

Uma atravessa o céu cedo demais.

A outra permanece até tarde.

Elas observam cavernas, lagos e florestas, mas não ousam chamar pela irmã, amiga ou amante que perderam.

Não porque não desejem.

Porque não recordam seu nome.

Com o passar dos milênios, elfos tentaram preencher o espaço vazio nas canções. Ofereceram à lua caída dezenas de nomes. Nenhum foi aceito por todos, e nenhum permaneceu por tempo suficiente para alcançar o céu.

Os astrônomos mais prudentes recusam-se a escolher um.

Dizem que um nome pronunciado por uma pessoa é lembrança.

Um nome repetido por um povo torna-se história.

Mas um nome reconhecido pelo mundo inteiro pode transformar novamente uma fada em lua.

Por isso, os manuscritos antigos deixam um espaço em branco onde seu nome deveria estar.

Não por ignorância.

Por cautela.

Há quem tema que nomeá-la incorretamente a obrigue a tornar-se aquilo que os elfos imaginam.

Há quem espere que seu verdadeiro nome seja encontrado e devolva ao céu a quarta luz.

E há Mouras que, quando perguntadas sobre a lua perdida, respondem apenas:

— Ela não está perdida. Vocês é que continuam procurando no alto.

Até hoje, quando uma estrela cai sobre Aetheryon, crianças são ensinadas a não lhe dar um nome imediatamente.

Primeiro devem observar onde ela caiu.

Depois devem perguntar o que saiu de dentro.

E somente se a criatura responder é permitido chamá-la de alguma coisa.

Pois o céu já perdeu uma lua por deixar de pronunciar seu nome.

E o mundo talvez não sobreviva ao erro de lhe oferecer o nome errado quando ela decidir voltar.